a solitude dos acompanhados

O afastar que não inibe a possibilidade de companhia.

“A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. ” [Arthur Schopenhauer]

Todos nós já ouvimos ou perguntamos a nós mesmos se não queremos ter filhos e se não temos medo de ficar sozinhos durante a velhice. O conceito de que a constituição familiar é parte de um processo de satisfação pessoal e não de projeção de indivíduos com livre escolha, é cada vez mais presente e imputa frustrações e expectativas sobre as pessoas. Pais tornam-se proprietários comportamentais de seus filhos através do domínio de ações e vontades; a responsabilidade educacional se perde em meio à ‘brincadeira de casinha’. Entretanto, outra concepção humana presente nas entrelinhas de perguntas como essa, é a do medo de estar sozinho, que nem sempre possui causas consistentes e é aquilo que funciona como engrenagem para a vida. O receio implícito à palavra solidão é causado pelo sentimento de que ela é a própria dor do rompimento de interações, quando esse é apenas um processo inato da estruturação social. Solidão não é sinônimo de carência, já que pode acontecer na presença de pessoas, e é necessária para a compreensão de si mesmo e percepção do mundo.

“Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas. Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia.” [Friedrich Nietzsche]

“… homens privados de solidão, de uma solidão que lhes seja própria, são, enfim, ridiculamente superficiais, sobretudo por sua tendência fundamental de ver nas formas da antiguidade a causa de toda miséria humana. Sua aspiração é a felicidade do rebanho, as verdes pastagens, a segurança e o bem-estar.” [Friedrich Nietzsche]

A possibilidade de perder o toque e a permanência de alguém é perturbadora e impulsiona o temor da solidão. Entretanto, essas são emergências da carne, não de espírito; afinal, nenhuma delas caracteriza a companhia de fato. É possível estar presente e não fazer companhia, tal como fazer companhia estando ausente. O amor e todos os sentimentos capazes de preencher o vazio são plenos apenas se puderem ser sentidos diante da ausência. Quando pessoas estão ao nosso redor mas suas mentes se afastam de nós, fazer com que voltem é uma tarefa que só elas podem desejar, no entanto, quando estão longe, trazê-las para perto, em pensamento, pode ser feito por nós. Solidão não é apenas isolamento, é o estado de reprodução consciente do que é verdadeiro.

“Escolhei a boa solidão, a solidão livre, a que vos permite seguir sendo bons em qualquer sentido.” [Friedrich Nietzsche]

O pensamento crítico e o desenvolvimento da personalidade dependem da solidão. É ela que propicia o silêncio que esclarece. A urgência do sentir muitas vezes camufla a urgência do pensar, sendo que esse não pode ser ensinado. A nulidade proporciona a fuga dos louvores cretinos e dos elogios descriteriosos, além da compreensão das críticas tanto internas quanto externas. Portanto, a boa solidão deve ser aquela que não ultrapassa os limites da fundamental convivência humana, afinal, compreender a si mesmo é proveitoso quando exercido em comunidade, assim como a valorização da vida em comunidade torna-se ampla ao ser entendido o papel da solidão.

Segundo Paul Valéry, há momentos em que a solitude e o silêncio se tornam meios de liberdade. Porém, a maioria das pessoas, segundo Sigmund Freud, não quer realmente a liberdade porque ela envolve a responsabilidade que a maioria das pessoas teme. É mais fácil para nós atribuir aos outros a capacidade de nos ferir e de conduzir a nossa existência, por esse motivo o que ecoa quando estamos sozinhos parece tão incômodo. Estar em estado de análise pessoal não é o mesmo que construir muralhas internas que impedem a propagação de sentimentos.

“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.” [Fernando Pessoa]

*pinturas de Edward Hopper.

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