do ser

Vida é aquilo que existe dada a pré-consciência de finitude. Sem tomar conhecimento da morte, a existência seria algo imaterial e sem formato, inominável e de dimensões inatingíveis. A consciência de finitude traz à vida a responsabilidade de nos conduzir à felicidade – que se faz promessa de dar sentido ao nosso período limitado no mundo. Também foi a vida que produziu o próprio caos do qual o conceito mais disseminado de felicidade foge. Não vivemos para ser felizes, aparentemente – pelo que é sugerido a nós – precisamos ser felizes para estarmos vivendo. Lidamos com consequências dos erros e acertos cometidos. As atitudes ruins não servem apenas para produzir o caos ou o arrependimento que esclarece, embora possam se reparar as consequências e aprender com eles. Os erros geram, como uma pedra jogada num lago, ondas que só avançam e não voltam, por mais que aparentemente eles não produzam males irreparáveis, mudam o curso de tudo.

Lembro-me de certa vez no metrô; um menino de pequena estatura e olhos com aparência de ressaca entrou e, encarando o chão, encostou-se em uma das portas frias. Eu segurava um pacote de biscoito que deveria ser o meu almoço daquele dia nublado e o menino passou a me encarar, desviando o olhar quando percebia que eu levantaria a cabeça, e esfregando as mãos desconcertado. Pedi que se aproximasse. Você quer? Ele apenas abaixou-se. Dei a ele o pacote todo e observei de longe a rapidez com que ele devorava cada uma das unidades, parecendo mal sentir o gosto de cada uma antes de engolir. Acho que ele não sabia quando comeria outra vez alguma coisa daquele tipo e o que seria depois da última mordida no último biscoito que segurasse; e esse pequeno fato talvez tenha intensificado o significado daquele momento. Não é surpresa que, na vida, cada pequeno detalhe que promova euforia seja comemorado quando se cogita a existência morte mais de perto.

Seguimos todos os dias com nossos afazeres dando-nos conta apenas da sobrevivência. Levantamos de manhã, escovamos os dentes, apressamos o passo, entramos debaixo do chuveiro, colocamos as roupas repetidas, passamos correndo em frente ao espelho, engolimos o café, avançamos para não perder o horário, cumprimentamos quem não queremos, olhamos sem enxergar, sentamos ao lado de histórias que nem consideramos conhecer, afastamos o toque, sentamos, lidamos com a papelada, vigiamos o relógio, tomamos a condução para casa, engolimos o jantar, deitamos, apagamos. É quando se aproximam de nós realidades trágicas, doenças agressivas ou a própria morte – se fazendo uma possibilidade – que percebemos a urgência da vida.

Tudo é uma questão de busca interminável. Quando alcançamos algo, ele pode facilmente perder o sentido porque a morte não ameaça mais a possibilidade de o conseguirmos. Você continua nutrindo seus hábitos a menos que alguma coisa o faça buscar outros que sejam novos. Você acostuma-se aos seus vícios de forma a não considerar quando não serão supridos. Bebes, necessariamente, todos os dias o whisky da sua marca favorita. A possibilidade de que ele acabe não é real e, por esse motivo, você não cogita outras bebidas. Se, de um dia para o outro, desaparecessem de todo o mundo, a adaptação deveria ser a única chance de manter-se. Diante da eternidade, a concepção de felicidade e aproveitamento da vida poderiam ser sem fundamento.

Há um relógio contando os passos curtos e acelerados do tempo. O ponteiro avança indicando a necessidade dos atos alegres. A satisfação pessoal é o melhor caminho para o que é efêmero. O relógio acelera ainda mais diante dos dias infelizes, que são tomados como dias vazios de significado, aqueles que foram perdidos e que soam como afronta à oportunidade de se estar vivo. ­Por mais que se ame viajar, há um momento em que voltar para casa, tirar a poeira dos móveis e desfazer as malas, se torna necessário. A tristeza é a casa para qual devemos voltar porque ela realmente nos entende e esclarece. Ainda que a sua natureza seja de alegria, você só pode descobrir isso diante da infelicidade. Assim se faz a tristeza fundamental a todos nós; a que nos mostra inúteis e evidencia o nosso verdadeiro valor.

“O apego ilimitado à vida, que se mostra aqui, não pode porvir do conhecimento e da reflexão; bem ao contrário, à luz de um exame ponderado tal apego parece insensato, pois o valor objetivo da vida é bem incerto, e é pelo menos duvidoso se a ela, a vida, não seria preferível o não-ser, e mesmo se se consultasse a reflexão e a experiência, é o não-ser que deve prevalecer. Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça em movimento de recusa.” (Arthur Schopenhauer, em Da Morte, página 25)

*pinturas de Edvard Munch.

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