galho

Acordei no sofá com uma ressaca visceral sem motivo aparente. Suada e fria. A pia da cozinha estava cheia de pratos. A cama estava desfeita e todas as janelas estavam abertas. Meu corpo se arrastava. Dormi quase todo tempo que me restava do dia e acordei com a mente ainda mais submersa nas camadas de culpa que eu depositei imprudentemente dentro de mim. Não queria ligar a televisão ou ler um livro. Apenas fiquei ali parada mutilando a consciência.

Sabia que a febre tinha chegado e que eu precisava escrever, mas minhas mãos não eram hábeis e meu coração estava mudo, consternado por perder o dom da palavra. Dei-me conta do quão vazia estou. Não tive coragem para sair do refúgio da mediocridade para agarrar o que desejei, vivi com tal ponderação que me fez desleal a mim mesma. Estava cansada demais para buscar, indisposta para lutar, apática para me mover. Andei à margem, na zona segura de não precisar saber o que eu realmente pensava. Deixei tudo me escapar por entre os dedos por não estar disposta a mover um músculo sequer, por me achar incapaz, por me sentir doente e ferida. A vontade de me entregar era o maior eco na minha existência. Cansei de sobreviver antes que tivesse começado a tentar. Fui seca como um galho que se despede e se afasta cada vez mais da seiva do tronco. Para mim a vida não podia dar fruto nenhum. Não era a dor que me assustava porque ela já fazia parte de mim.

Coloquei o cereal na tigela com o leite, suspirei e puxei aquele aroma para dentro das entranhas como se fosse uma lembrança que precisasse ser guardada. Até ali tudo tinha sido um borrão de que eu não conseguia recordar com fidelidade. Assim, eu era vítima daquele passado que não pude mudar, das palavras que não pude desdizer e do silêncio que eu não soube dar.

Se eu já tinha errado até ali, para que escrever por cima do erro? Era aceitável apenas conduzir minha respiração até o momento em que não pudesse mais, e me livrar daquela agonia para talvez recomeçar e tentar fazer diferente. Eu não gostava da ideia de recomeçar. Preferia só começar. Começar certo. Não sei se alguma coisa mudou depois de me certificar de que até hoje não havia razões que realmente me fizessem apaixonada pela vida. Não tenho o impulso, nem a imprudência. Não tenho curiosidade, ou expectativa. Não quero fazer, lamento por não ter feito. Alimento-me de arrependimentos e cicatrizes abertas. Previsível. Ofegante. Cansativa. Nauseada. Dispersa. Desinteressada.

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dos meus dias

Vivo aflita sempre a procurar uma explicação, um motivo de ser, um alívio íntimo. Dos meus dias só resta a contagem de cada um, os quais acompanhei minuciosamente à medida que avançavam os ponteiros. Nunca tive autoestima admirável, sequer a ambição de tê-la. Julgam-me a consciência e a decência. Não aceitam que me reconheça menor do que acham que eu deveria me reconhecer. Desejo ser pequena para poder me acompridar e ter um lugar para pertencer  .

Não sou hábil para as convenções, tampouco me esforço para ser similar ao meio em que estou. Só me orgulho de não ser medíocre e pobre de alma. À medida que tentaram me prender, tornei-me mais livre, ainda que pensasse estar cada vez mais só e perto da loucura. Hoje sei que cada passo espremido contra o chão e cada gota de sangue doada, são partes do que me fizeram o maior orgulho de mim mesma.

*Pinturas de Carl Vilhelm Holsoe.

sablier

“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução… é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada… o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões.” (Antonio Candido durante a inauguração de uma biblioteca do MST, no interior de São Paulo)

minhas ambições eram agora diminutos e exíguos anseios.

Já não sei o que é ser realizada. Desde pequena fui levada a acreditar que poderiam se orgulhar de mim por tudo o que eu imaginava que construiria. A cena era sempre a mesma: os estudos sempre indo bem, uma carreira brilhante pela frente, bastante dinheiro no banco, uma casa grande e confortável. Pensava eu em fazer grandes descobertas, achava ter a solução para todos os problemas. Encontrava-me, então, na condição de salvadora dos meus próprios dias e dos dias de parte da humanidade. Mas que grande ilusão era aquela. Era um querer tão vazio de sentido que eu o perdi.

Com o passar do tempo aquilo que era o meu tudo tornou-se nada. Inverteram-se todas as prioridades e o que eu acreditava ser sinal de sucesso tornou-se a maior demonstração do mais fatal fracasso. Descobri que uma das minhas maiores virtudes seria a melancolia, e nenhuma das minhas suposições para o amadurecer eram substanciais o suficiente para a minha fome. Hoje eu já não quero o ser ou o descrever, contento-me apenas com o vácuo e com o silêncio, com a perturbação dos meus próprios pensamentos, com o anseio e com a dor. Alimenta-me cada vez mais a própria fome, preenche-me cada vez mais a ausência e já não quero ter para onde ir.

Dos meus dias restou a vontade de romper as servidões, de viver aquilo que chamam de miséria pela simples certeza de que é o maior tesouro; é a verdadeira vida. Importa para mim desfrutar dos meus limites, dar importância ao que não pode comprar nada. Hoje eu sou vergonha, sou consciência gasta e maltrapilha. Sou o que chamam de fracasso e, ao ver todo o giro da ampulheta, de repente, já não me importo.

do ser

Vida é aquilo que existe dada a pré-consciência de finitude. Sem tomar conhecimento da morte, a existência seria algo imaterial e sem formato, inominável e de dimensões inatingíveis. A consciência de finitude traz à vida a responsabilidade de nos conduzir à felicidade – que se faz promessa de dar sentido ao nosso período limitado no mundo. Também foi a vida que produziu o próprio caos do qual o conceito mais disseminado de felicidade foge. Não vivemos para ser felizes, aparentemente – pelo que é sugerido a nós – precisamos ser felizes para estarmos vivendo. Lidamos com consequências dos erros e acertos cometidos. As atitudes ruins não servem apenas para produzir o caos ou o arrependimento que esclarece, embora possam se reparar as consequências e aprender com eles. Os erros geram, como uma pedra jogada num lago, ondas que só avançam e não voltam, por mais que aparentemente eles não produzam males irreparáveis, mudam o curso de tudo.

Lembro-me de certa vez no metrô; um menino de pequena estatura e olhos com aparência de ressaca entrou e, encarando o chão, encostou-se em uma das portas frias. Eu segurava um pacote de biscoito que deveria ser o meu almoço daquele dia nublado e o menino passou a me encarar, desviando o olhar quando percebia que eu levantaria a cabeça, e esfregando as mãos desconcertado. Pedi que se aproximasse. Você quer? Ele apenas abaixou-se. Dei a ele o pacote todo e observei de longe a rapidez com que ele devorava cada uma das unidades, parecendo mal sentir o gosto de cada uma antes de engolir. Acho que ele não sabia quando comeria outra vez alguma coisa daquele tipo e o que seria depois da última mordida no último biscoito que segurasse; e esse pequeno fato talvez tenha intensificado o significado daquele momento. Não é surpresa que, na vida, cada pequeno detalhe que promova euforia seja comemorado quando se cogita a existência morte mais de perto.

Seguimos todos os dias com nossos afazeres dando-nos conta apenas da sobrevivência. Levantamos de manhã, escovamos os dentes, apressamos o passo, entramos debaixo do chuveiro, colocamos as roupas repetidas, passamos correndo em frente ao espelho, engolimos o café, avançamos para não perder o horário, cumprimentamos quem não queremos, olhamos sem enxergar, sentamos ao lado de histórias que nem consideramos conhecer, afastamos o toque, sentamos, lidamos com a papelada, vigiamos o relógio, tomamos a condução para casa, engolimos o jantar, deitamos, apagamos. É quando se aproximam de nós realidades trágicas, doenças agressivas ou a própria morte – se fazendo uma possibilidade – que percebemos a urgência da vida.

Tudo é uma questão de busca interminável. Quando alcançamos algo, ele pode facilmente perder o sentido porque a morte não ameaça mais a possibilidade de o conseguirmos. Você continua nutrindo seus hábitos a menos que alguma coisa o faça buscar outros que sejam novos. Você acostuma-se aos seus vícios de forma a não considerar quando não serão supridos. Bebes, necessariamente, todos os dias o whisky da sua marca favorita. A possibilidade de que ele acabe não é real e, por esse motivo, você não cogita outras bebidas. Se, de um dia para o outro, desaparecessem de todo o mundo, a adaptação deveria ser a única chance de manter-se. Diante da eternidade, a concepção de felicidade e aproveitamento da vida poderiam ser sem fundamento.

Há um relógio contando os passos curtos e acelerados do tempo. O ponteiro avança indicando a necessidade dos atos alegres. A satisfação pessoal é o melhor caminho para o que é efêmero. O relógio acelera ainda mais diante dos dias infelizes, que são tomados como dias vazios de significado, aqueles que foram perdidos e que soam como afronta à oportunidade de se estar vivo. ­Por mais que se ame viajar, há um momento em que voltar para casa, tirar a poeira dos móveis e desfazer as malas, se torna necessário. A tristeza é a casa para qual devemos voltar porque ela realmente nos entende e esclarece. Ainda que a sua natureza seja de alegria, você só pode descobrir isso diante da infelicidade. Assim se faz a tristeza fundamental a todos nós; a que nos mostra inúteis e evidencia o nosso verdadeiro valor.

“O apego ilimitado à vida, que se mostra aqui, não pode porvir do conhecimento e da reflexão; bem ao contrário, à luz de um exame ponderado tal apego parece insensato, pois o valor objetivo da vida é bem incerto, e é pelo menos duvidoso se a ela, a vida, não seria preferível o não-ser, e mesmo se se consultasse a reflexão e a experiência, é o não-ser que deve prevalecer. Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça em movimento de recusa.” (Arthur Schopenhauer, em Da Morte, página 25)

*pinturas de Edvard Munch.

la vie en rose

Madrugada atípica a de hoje. Tão poucas iguais a essa foram as minhas, que me lembro bem de cada uma. Estou sentada na janela com as pernas penduradas. Vendo, aos poucos, o céu ir da escala de preto até o azul, e um tom amarelo surgir entre as nuvens. La vie en rose tocando no fone de ouvido. Uma caneca de chá nas mãos e a fumaça perfumada, que se esculpira à minha frente, se desfazendo em segundos. Observo, do meu quarto no segundo andar, o silêncio das casas em volta da minha. As luzes apagadas; o sono leve de quem vai acordar daqui a poucos minutos, e o sono pesado de quem não terá o que fazer antes das onze. As preocupações dos que dormiram para esquecer dos problemas que, ao amanhecer, voltarão a existir. O ronco pesado do corpo cansado e imóvel, que não parece estar habitado por uma mente que sequer cochila. A tranquilidade dos que dormiram felizes e agradecidos. Pessoas acordadas em frente à tv. Alguns pela rua trabalhando sem ser notados. E eu aqui, acordada, imaginando cada um daquela cidade, como espectadora das possibilidades da existência.

É como ter o céu em meio ao caos. A sensação reconfortante de levantar da cama de manhãzinha sentindo-se segura, arrastar o cobertor pela sala da casa e deitar no sofá para assistir desenhos dançados ao som de Beethoven. Como comer biscoitos vendo Madeline, repetindo todas as palavras em francês pronunciadas, reparando cada rima da narração. Sorrindo sem motivo além do sentir de algo inexplicavelmente sublime. É tal como a guerra, não nos campos de batalha, mas nas casas isoladas com a vitrola ligada, na corrida de crianças despreocupadas por entre as plantações, nos sorrisos das famílias no porão ao reviver memórias. Assemelha-se a filmes restaurados vistos numa tarde chuvosa, comendo bolo de fubá recém-saído do forno. Algumas noites como essa me fizeram tão plena que eu desejei companhia para dividir o que transbordava em mim.

Estar incompleta transvestia-se da necessidade de ficar completamente só. Costumava ser quando havia tanto barulho que eu não conseguia arrumar meus pensamentos gavetas, e precisava refletir sobre coisas que eu não podia explicar, como o porquê de estar viva. Nada de bonito parecia existir ou ser real. Mas quando me encontro numa madrugada como essa, vestindo uma camisa larga, agora já ouvindo The Drums no escuro; de repente, estou apenas feliz. São momentos que a gente deseja explicar, mas não consegue, são pequenos silêncios que valem a vida toda. Neles é que eu quero companhia. Companhia que os anos me fazem acreditar que nunca virá.

Miserável é a condição de quem imagina a vida para viver, de quem já tomou para si histórias excelsas que não passaram da memória de ocasiões nunca vividas de fato. O fardo de produzir lembranças irreais e esquecer-se de pisar na realidade. Fardo que se torna vício e, no fim, o próprio abismo. Não sei se o que há mim é verdadeiro ou se vivo uma farsa. Se tranquei meus sentimentos verdadeiros onde não pudesse recuperá-los e furtei outros, melhores de serem sentidos, para afagar a minha mediocridade. A vontade de amar me levou ao exagero, ao erro de ser uma esponja num copo de sofrimentos alheios dissolvidos. Já não posso diferenciar, por meio da razão, o que é realmente meu do que assimilei por vontade de sentir qualquer coisa que me fizesse mais sólida.

Assim estou. Diante das minhas fantasias, esperando apenas ser surpreendida por algo que seja melhor do que elas pelo simples fato de existir. A companhia verdadeira de sentimentos ofegantes, de uma dúvida trêmula. Da sensação de estar perdendo o juízo, da saudade e do olhar sincero. A companhia de um sentimento que, finalmente, não me faça considerar a hipótese de que ele não seja real.

* obras de Raymond Peynet.

Ele

Existe gente verdadeiramente bonita, que dá gosto de ver; daquele tipo que desperta um afeto inesperado, um aconchego em forma de atenção. Existe gente que é nada, que nos atravessa e só deixa para trás uma sensação de brisa que refrigera. Tem gente que é tela e se permite desenhar. Também há gente que é muro, nos rodeia como fortaleza. Existe gente que corrompe o nosso olhar e o transforma em incômodo.

E, no meio de tanta gente, havia ele, que era tudo.

Nove de fevereiro. As ruas de minha casa estavam cobertas de papel colorido picado e do meu quarto eu ouvia o eco das bandas tocando no centro da cidade. Um milhão de sorrisos naquela noite de folia, imaginei. Talvez tanto quanto as frustrações, trancadas em armários como âncoras – que libertaram quem as quisesse esquecer, pelo menos por um dia, embriagando-se de tudo que prometesse o desaprender efêmero de qualquer tipo de sofrimento. Suspirei e entrei debaixo do chuveiro, deixando a pressão da água massagear a minha pele. Fiquei por muitos minutos ali, sentindo meu cabelo escorrer pelas costas. Estava anestesiada pela água quente quando saí dali. Ainda enrolada na toalha, sentei-me na cama e abri o pequeno pote de creme que ainda não abrira desde o natal. Espalhava-o na pele enquanto o meu corpo parecia desistir de permanecer acordado. Lembro-me apenas de despertar na rua vazia, às três horas da manhã. Minhas pernas, diferentemente de mim, conscientes do desejo de saírem do quarto, haviam me levado à calçada. Era tudo muito escuro a não ser por uma luz que vinha da janela do quinto apartamento do meu prédio. Esfreguei os olhos, ainda sem entender aquele episódio, e levantei-me para retornar ao quarto, ajeitando o nó da toalha. Voltei-me mais uma vez para o tal apartamento, antes de passar pelo portão do edifício, e percebi um homem de cabelos bem escuros e arrepiados que equilibrava uma garrafa entre os dedos enquanto olhava entediado para o chão.

Não direi como nos conhecemos. Parte disso é porque não sei como aconteceu; se já o conhecia antes mesmo de encontrá-lo ou se tivemos um momento certo para isso. Apenas sei que, desde aquele dia em que o vi pela primeira vez, desejei estar com ele. Encontrávamos-nos no Café da rua sete todas as manhãs, eu pedindo um expresso e algo para comer no caminho para o trabalho, e ele sempre bebendo cappuccino. Gostava de ouvi-lo sorrir através de palavras. Furtavam a minha atenção cada uma das formas de expressão dele e eu sentia vontade de descascá-lo para saber que gosto tinha. Queria vê-lo por dentro e tocar, sem luvas, o perigo que eu pensava ser interno a ele. Rabiscava-me a pele em palavras avulsas, onde ele desejasse no momento. A minha permissão para cada passo que ele desse em direção a mim era dita pelo olhar. Nunca quis dar forma, em palavras, para o que eu sentia. Temia que se aquilo saísse de dentro de mim poderia ser roubado por alguém, ou que se perdesse, carregado pelo vento. Nas manhãs seguintes, passei a vê-lo diante da minha janela, com o braço escorado na parede. Observava deitada e com os olhos entreabertos, as suas costas com ossos aparentes e de pele pálida. Conseguia enxergar todas as veias passando pelo corpo dele feito atalhos em um mapa, e as invejava. Éramos duas pessoas no meio do barulho perturbador de uma multidão – num corredor apertado, separadas. Eu numa extremidade e ele em outra, cada um encostado em uma parede fria para que elas não desabassem, tentando dizer todas as vontades sem pronunciar palavra alguma. Ansiava que ele fosse meu e sabia que escolheria eternizar todos aqueles dias que passamos juntos. Mas éramos distantes, tínhamos algo demais para ser possível.

Por muitas vezes, eu o vi triste. Ele era essencialmente triste, faminto. Por mais que se alimentasse dos meus sentidos, nada bastava. Nas madrugadas, eu encarava o teto do quarto e esticava o braço percebendo a ausência dele. Era capaz de ouvir sua perturbação interna na sala, e um choro inquieto. Sabia que aquela era a necessidade mais emergencial dele. Eu já não perambulava inconsciente, acordando nas calçadas. Aquelas manhãs passaram a ser feitas para que, depois da ressaca, eu o beijasse por segundos milenares. Acho que o amava. Ele parecia pressentir que nos odiaríamos e não conseguir fugir disso. Eu, que o apreciava como se fosse um sentimento meu, sabia que era impossível para nós dois a interrupção de laços. Sabia que nenhum de nós poderia conduzi-la, já que agora éramos parte de um mesmo problema. Ficar juntos faria com que morrêssemos aos poucos, um devorando o outro. Aparentava ser esse o nosso maior castigo; chamaria de uma coceira constante que viajava pelo corpo fugindo das unhas que a pudessem conter e que, quando finalmente sossegava, permitia que a arranhássemos tão forte, dilacerando toda a pele, e o prazer era inominável, seguido de dor.

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*pintura de Gustav Klimt.


Brenda Candeia.

amar é não saber

A beleza e dureza dos sentimentos reside na sua indefinição. Como pode alguém ter a certeza de amar, quando ainda não sabe se existirão amores maiores que esse próprio amor? Se, no instante, esse torna-se o ápice do sentir, que nome poderá ser dado ao que for maior? É como estar diante de uma flor e conjecturar que ela seja a mais linda que existe, sem considerar as tantas outras flores nunca vistas que podem ser ainda mais bonitas que ela. É o conduzir de convicções baseadas em retrospectivas e evitar as possibilidades. Entregar-se imprudentemente à intensidade do incerto. No fim, o amor deve ser isso; abrir mão das possibilidades e entregar-se às certezas relativas que apenas o momento oferece.

Mais fácil que tentar entender aquilo que não pode ser entendido, é imaginar que amar é o verbo em mutação constante, barro cuja modelagem não tem fim, e que cria inúmeros formatos. Tanto a pessoa que o sente não é a mesma em todas as circunstâncias, quanto a que é alvo dele também não o é. Aquilo que nasce como sentimento, é o que não está debaixo do controle de nenhum dos envolvidos. O amor fica entre tudo isso, bem no meio. É o que acontece através da mistura do que é dado com o que é recebido. Constrói-se sem ser notado, apenas é sentido, e fica em cada instante sem poder ser capturado. Não deixa de ser uma urgência, é como poeta que escreve pela necessidade profunda de se vomitar, mesmo sentindo o penar de palavras nunca bastarem para acalmar o desassossego.

A certeza de algo só pode existir se ele for definido e pré-determinado, coisa que não alcança os sentimentos. Toda comparação de um amor para outro é vã. Não cabe. Amor é o nome que se dá para sentimentos efetivos sem explicação. Ainda que sejam menos efetivos que ontem, ou mais efetivos que amanhã. Que sejam menos duradouros ou menos intensos. Não deixa de ser amor por ser diferente. Apenas é, e ponto.

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Brenda Candeia.