eu

Queria ser como Hamlet, acho que esse anseio me enganava mais que qualquer mentira que já tivessem me contado. Furtei todos os traços da minha personalidade para ser aquilo que eu imaginava que deveria ser. O que eu queria tomar dele era o desinteresse em falar de si mesmo; o modo como as misérias pessoais não eram ditas e como havia pouco a se saber a não ser o que os olhos revelavam. A verdade é que eu nunca o fui. Sou previsível e acabo por definir-me.

“Parava a cada passo, primeiro a distância, depois girando em torno de cada pedrinha que eu encontrava no caminho, espantando-me de que os outros pudessem passar adiante sem dar a mínima atenção àquela pedrinha que, entretanto, para mim, havia assumido as proporções de uma montanha intransponível, aliás, de um mundo em que eu teria podido morar tranquilamente.

Tinha ficado ali, parado nos primeiros passos de tantos caminhos, com o espírito cheio de mundos – ou de pedrinhas, o que dá no mesmo. Mas não me parecia de modo nenhum que aqueles que passavam adiante e percorriam toda a estrada soubessem substancialmente mais do que eu. Passaram à minha frente, quanto a isso não há dúvida, e todos velozes como cavalinhos. Mas depois, no fim da estrada, todos encontraram uma carroça, a sua carroça. Todos se atrelaram a ela com muita paciência e, agora, a estão puxando nas costas. Já eu não puxava nada; e por isso não tinha rédeas nem antolhos. Certamente eu via mais longe do que eles, mas não sabia aonde ir.”

(Um, nenhum e cem mil – Luigi Pirandello, páginas 21 e 22)

 

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