dos meus dias

Vivo aflita sempre a procurar uma explicação, um motivo de ser, um alívio íntimo. Dos meus dias só resta a contagem de cada um, os quais acompanhei minuciosamente à medida que avançavam os ponteiros. Nunca tive autoestima admirável, sequer a ambição de tê-la. Julgam-me a consciência e a decência. Não aceitam que me reconheça menor do que acham que eu deveria me reconhecer. Desejo ser pequena para poder me acompridar e ter um lugar para pertencer  .

Não sou hábil para as convenções, tampouco me esforço para ser similar ao meio em que estou. Só me orgulho de não ser medíocre e pobre de alma. À medida que tentaram me prender, tornei-me mais livre, ainda que pensasse estar cada vez mais só e perto da loucura. Hoje sei que cada passo espremido contra o chão e cada gota de sangue doada, são partes do que me fizeram o maior orgulho de mim mesma.

*Pinturas de Carl Vilhelm Holsoe.
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la vie en rose

Madrugada atípica a de hoje. Tão poucas iguais a essa foram as minhas, que me lembro bem de cada uma. Estou sentada na janela com as pernas penduradas. Vendo, aos poucos, o céu ir da escala de preto até o azul, e um tom amarelo surgir entre as nuvens. La vie en rose tocando no fone de ouvido. Uma caneca de chá nas mãos e a fumaça perfumada, que se esculpira à minha frente, se desfazendo em segundos. Observo, do meu quarto no segundo andar, o silêncio das casas em volta da minha. As luzes apagadas; o sono leve de quem vai acordar daqui a poucos minutos, e o sono pesado de quem não terá o que fazer antes das onze. As preocupações dos que dormiram para esquecer dos problemas que, ao amanhecer, voltarão a existir. O ronco pesado do corpo cansado e imóvel, que não parece estar habitado por uma mente que sequer cochila. A tranquilidade dos que dormiram felizes e agradecidos. Pessoas acordadas em frente à tv. Alguns pela rua trabalhando sem ser notados. E eu aqui, acordada, imaginando cada um daquela cidade, como espectadora das possibilidades da existência.

É como ter o céu em meio ao caos. A sensação reconfortante de levantar da cama de manhãzinha sentindo-se segura, arrastar o cobertor pela sala da casa e deitar no sofá para assistir desenhos dançados ao som de Beethoven. Como comer biscoitos vendo Madeline, repetindo todas as palavras em francês pronunciadas, reparando cada rima da narração. Sorrindo sem motivo além do sentir de algo inexplicavelmente sublime. É tal como a guerra, não nos campos de batalha, mas nas casas isoladas com a vitrola ligada, na corrida de crianças despreocupadas por entre as plantações, nos sorrisos das famílias no porão ao reviver memórias. Assemelha-se a filmes restaurados vistos numa tarde chuvosa, comendo bolo de fubá recém-saído do forno. Algumas noites como essa me fizeram tão plena que eu desejei companhia para dividir o que transbordava em mim.

Estar incompleta transvestia-se da necessidade de ficar completamente só. Costumava ser quando havia tanto barulho que eu não conseguia arrumar meus pensamentos gavetas, e precisava refletir sobre coisas que eu não podia explicar, como o porquê de estar viva. Nada de bonito parecia existir ou ser real. Mas quando me encontro numa madrugada como essa, vestindo uma camisa larga, agora já ouvindo The Drums no escuro; de repente, estou apenas feliz. São momentos que a gente deseja explicar, mas não consegue, são pequenos silêncios que valem a vida toda. Neles é que eu quero companhia. Companhia que os anos me fazem acreditar que nunca virá.

Miserável é a condição de quem imagina a vida para viver, de quem já tomou para si histórias excelsas que não passaram da memória de ocasiões nunca vividas de fato. O fardo de produzir lembranças irreais e esquecer-se de pisar na realidade. Fardo que se torna vício e, no fim, o próprio abismo. Não sei se o que há mim é verdadeiro ou se vivo uma farsa. Se tranquei meus sentimentos verdadeiros onde não pudesse recuperá-los e furtei outros, melhores de serem sentidos, para afagar a minha mediocridade. A vontade de amar me levou ao exagero, ao erro de ser uma esponja num copo de sofrimentos alheios dissolvidos. Já não posso diferenciar, por meio da razão, o que é realmente meu do que assimilei por vontade de sentir qualquer coisa que me fizesse mais sólida.

Assim estou. Diante das minhas fantasias, esperando apenas ser surpreendida por algo que seja melhor do que elas pelo simples fato de existir. A companhia verdadeira de sentimentos ofegantes, de uma dúvida trêmula. Da sensação de estar perdendo o juízo, da saudade e do olhar sincero. A companhia de um sentimento que, finalmente, não me faça considerar a hipótese de que ele não seja real.

* obras de Raymond Peynet.

Ele

Existe gente verdadeiramente bonita, que dá gosto de ver; daquele tipo que desperta um afeto inesperado, um aconchego em forma de atenção. Existe gente que é nada, que nos atravessa e só deixa para trás uma sensação de brisa que refrigera. Tem gente que é tela e se permite desenhar. Também há gente que é muro, nos rodeia como fortaleza. Existe gente que corrompe o nosso olhar e o transforma em incômodo.

E, no meio de tanta gente, havia ele, que era tudo.

Nove de fevereiro. As ruas de minha casa estavam cobertas de papel colorido picado e do meu quarto eu ouvia o eco das bandas tocando no centro da cidade. Um milhão de sorrisos naquela noite de folia, imaginei. Talvez tanto quanto as frustrações, trancadas em armários como âncoras – que libertaram quem as quisesse esquecer, pelo menos por um dia, embriagando-se de tudo que prometesse o desaprender efêmero de qualquer tipo de sofrimento. Suspirei e entrei debaixo do chuveiro, deixando a pressão da água massagear a minha pele. Fiquei por muitos minutos ali, sentindo meu cabelo escorrer pelas costas. Estava anestesiada pela água quente quando saí dali. Ainda enrolada na toalha, sentei-me na cama e abri o pequeno pote de creme que ainda não abrira desde o natal. Espalhava-o na pele enquanto o meu corpo parecia desistir de permanecer acordado. Lembro-me apenas de despertar na rua vazia, às três horas da manhã. Minhas pernas, diferentemente de mim, conscientes do desejo de saírem do quarto, haviam me levado à calçada. Era tudo muito escuro a não ser por uma luz que vinha da janela do quinto apartamento do meu prédio. Esfreguei os olhos, ainda sem entender aquele episódio, e levantei-me para retornar ao quarto, ajeitando o nó da toalha. Voltei-me mais uma vez para o tal apartamento, antes de passar pelo portão do edifício, e percebi um homem de cabelos bem escuros e arrepiados que equilibrava uma garrafa entre os dedos enquanto olhava entediado para o chão.

Não direi como nos conhecemos. Parte disso é porque não sei como aconteceu; se já o conhecia antes mesmo de encontrá-lo ou se tivemos um momento certo para isso. Apenas sei que, desde aquele dia em que o vi pela primeira vez, desejei estar com ele. Encontrávamos-nos no Café da rua sete todas as manhãs, eu pedindo um expresso e algo para comer no caminho para o trabalho, e ele sempre bebendo cappuccino. Gostava de ouvi-lo sorrir através de palavras. Furtavam a minha atenção cada uma das formas de expressão dele e eu sentia vontade de descascá-lo para saber que gosto tinha. Queria vê-lo por dentro e tocar, sem luvas, o perigo que eu pensava ser interno a ele. Rabiscava-me a pele em palavras avulsas, onde ele desejasse no momento. A minha permissão para cada passo que ele desse em direção a mim era dita pelo olhar. Nunca quis dar forma, em palavras, para o que eu sentia. Temia que se aquilo saísse de dentro de mim poderia ser roubado por alguém, ou que se perdesse, carregado pelo vento. Nas manhãs seguintes, passei a vê-lo diante da minha janela, com o braço escorado na parede. Observava deitada e com os olhos entreabertos, as suas costas com ossos aparentes e de pele pálida. Conseguia enxergar todas as veias passando pelo corpo dele feito atalhos em um mapa, e as invejava. Éramos duas pessoas no meio do barulho perturbador de uma multidão – num corredor apertado, separadas. Eu numa extremidade e ele em outra, cada um encostado em uma parede fria para que elas não desabassem, tentando dizer todas as vontades sem pronunciar palavra alguma. Ansiava que ele fosse meu e sabia que escolheria eternizar todos aqueles dias que passamos juntos. Mas éramos distantes, tínhamos algo demais para ser possível.

Por muitas vezes, eu o vi triste. Ele era essencialmente triste, faminto. Por mais que se alimentasse dos meus sentidos, nada bastava. Nas madrugadas, eu encarava o teto do quarto e esticava o braço percebendo a ausência dele. Era capaz de ouvir sua perturbação interna na sala, e um choro inquieto. Sabia que aquela era a necessidade mais emergencial dele. Eu já não perambulava inconsciente, acordando nas calçadas. Aquelas manhãs passaram a ser feitas para que, depois da ressaca, eu o beijasse por segundos milenares. Acho que o amava. Ele parecia pressentir que nos odiaríamos e não conseguir fugir disso. Eu, que o apreciava como se fosse um sentimento meu, sabia que era impossível para nós dois a interrupção de laços. Sabia que nenhum de nós poderia conduzi-la, já que agora éramos parte de um mesmo problema. Ficar juntos faria com que morrêssemos aos poucos, um devorando o outro. Aparentava ser esse o nosso maior castigo; chamaria de uma coceira constante que viajava pelo corpo fugindo das unhas que a pudessem conter e que, quando finalmente sossegava, permitia que a arranhássemos tão forte, dilacerando toda a pele, e o prazer era inominável, seguido de dor.

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*pintura de Gustav Klimt.


Brenda Candeia.

amar é não saber

A beleza e dureza dos sentimentos reside na sua indefinição. Como pode alguém ter a certeza de amar, quando ainda não sabe se existirão amores maiores que esse próprio amor? Se, no instante, esse torna-se o ápice do sentir, que nome poderá ser dado ao que for maior? É como estar diante de uma flor e conjecturar que ela seja a mais linda que existe, sem considerar as tantas outras flores nunca vistas que podem ser ainda mais bonitas que ela. É o conduzir de convicções baseadas em retrospectivas e evitar as possibilidades. Entregar-se imprudentemente à intensidade do incerto. No fim, o amor deve ser isso; abrir mão das possibilidades e entregar-se às certezas relativas que apenas o momento oferece.

Mais fácil que tentar entender aquilo que não pode ser entendido, é imaginar que amar é o verbo em mutação constante, barro cuja modelagem não tem fim, e que cria inúmeros formatos. Tanto a pessoa que o sente não é a mesma em todas as circunstâncias, quanto a que é alvo dele também não o é. Aquilo que nasce como sentimento, é o que não está debaixo do controle de nenhum dos envolvidos. O amor fica entre tudo isso, bem no meio. É o que acontece através da mistura do que é dado com o que é recebido. Constrói-se sem ser notado, apenas é sentido, e fica em cada instante sem poder ser capturado. Não deixa de ser uma urgência, é como poeta que escreve pela necessidade profunda de se vomitar, mesmo sentindo o penar de palavras nunca bastarem para acalmar o desassossego.

A certeza de algo só pode existir se ele for definido e pré-determinado, coisa que não alcança os sentimentos. Toda comparação de um amor para outro é vã. Não cabe. Amor é o nome que se dá para sentimentos efetivos sem explicação. Ainda que sejam menos efetivos que ontem, ou mais efetivos que amanhã. Que sejam menos duradouros ou menos intensos. Não deixa de ser amor por ser diferente. Apenas é, e ponto.

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Brenda Candeia.

a solitude dos acompanhados

O afastar que não inibe a possibilidade de companhia.

“A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. ” [Arthur Schopenhauer]

Todos nós já ouvimos ou perguntamos a nós mesmos se não queremos ter filhos e se não temos medo de ficar sozinhos durante a velhice. O conceito de que a constituição familiar é parte de um processo de satisfação pessoal e não de projeção de indivíduos com livre escolha, é cada vez mais presente e imputa frustrações e expectativas sobre as pessoas. Pais tornam-se proprietários comportamentais de seus filhos através do domínio de ações e vontades; a responsabilidade educacional se perde em meio à ‘brincadeira de casinha’. Entretanto, outra concepção humana presente nas entrelinhas de perguntas como essa, é a do medo de estar sozinho, que nem sempre possui causas consistentes e é aquilo que funciona como engrenagem para a vida. O receio implícito à palavra solidão é causado pelo sentimento de que ela é a própria dor do rompimento de interações, quando esse é apenas um processo inato da estruturação social. Solidão não é sinônimo de carência, já que pode acontecer na presença de pessoas, e é necessária para a compreensão de si mesmo e percepção do mundo.

“Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas. Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia.” [Friedrich Nietzsche]

“… homens privados de solidão, de uma solidão que lhes seja própria, são, enfim, ridiculamente superficiais, sobretudo por sua tendência fundamental de ver nas formas da antiguidade a causa de toda miséria humana. Sua aspiração é a felicidade do rebanho, as verdes pastagens, a segurança e o bem-estar.” [Friedrich Nietzsche]

A possibilidade de perder o toque e a permanência de alguém é perturbadora e impulsiona o temor da solidão. Entretanto, essas são emergências da carne, não de espírito; afinal, nenhuma delas caracteriza a companhia de fato. É possível estar presente e não fazer companhia, tal como fazer companhia estando ausente. O amor e todos os sentimentos capazes de preencher o vazio são plenos apenas se puderem ser sentidos diante da ausência. Quando pessoas estão ao nosso redor mas suas mentes se afastam de nós, fazer com que voltem é uma tarefa que só elas podem desejar, no entanto, quando estão longe, trazê-las para perto, em pensamento, pode ser feito por nós. Solidão não é apenas isolamento, é o estado de reprodução consciente do que é verdadeiro.

“Escolhei a boa solidão, a solidão livre, a que vos permite seguir sendo bons em qualquer sentido.” [Friedrich Nietzsche]

O pensamento crítico e o desenvolvimento da personalidade dependem da solidão. É ela que propicia o silêncio que esclarece. A urgência do sentir muitas vezes camufla a urgência do pensar, sendo que esse não pode ser ensinado. A nulidade proporciona a fuga dos louvores cretinos e dos elogios descriteriosos, além da compreensão das críticas tanto internas quanto externas. Portanto, a boa solidão deve ser aquela que não ultrapassa os limites da fundamental convivência humana, afinal, compreender a si mesmo é proveitoso quando exercido em comunidade, assim como a valorização da vida em comunidade torna-se ampla ao ser entendido o papel da solidão.

Segundo Paul Valéry, há momentos em que a solitude e o silêncio se tornam meios de liberdade. Porém, a maioria das pessoas, segundo Sigmund Freud, não quer realmente a liberdade porque ela envolve a responsabilidade que a maioria das pessoas teme. É mais fácil para nós atribuir aos outros a capacidade de nos ferir e de conduzir a nossa existência, por esse motivo o que ecoa quando estamos sozinhos parece tão incômodo. Estar em estado de análise pessoal não é o mesmo que construir muralhas internas que impedem a propagação de sentimentos.

“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.” [Fernando Pessoa]

*pinturas de Edward Hopper.