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“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução… é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada… o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões.” (Antonio Candido durante a inauguração de uma biblioteca do MST, no interior de São Paulo)

minhas ambições eram agora diminutos e exíguos anseios.

Já não sei o que é ser realizada. Desde pequena fui levada a acreditar que poderiam se orgulhar de mim por tudo o que eu imaginava que construiria. A cena era sempre a mesma: os estudos sempre indo bem, uma carreira brilhante pela frente, bastante dinheiro no banco, uma casa grande e confortável. Pensava eu em fazer grandes descobertas, achava ter a solução para todos os problemas. Encontrava-me, então, na condição de salvadora dos meus próprios dias e dos dias de parte da humanidade. Mas que grande ilusão era aquela. Era um querer tão vazio de sentido que eu o perdi.

Com o passar do tempo aquilo que era o meu tudo tornou-se nada. Inverteram-se todas as prioridades e o que eu acreditava ser sinal de sucesso tornou-se a maior demonstração do mais fatal fracasso. Descobri que uma das minhas maiores virtudes seria a melancolia, e nenhuma das minhas suposições para o amadurecer eram substanciais o suficiente para a minha fome. Hoje eu já não quero o ser ou o descrever, contento-me apenas com o vácuo e com o silêncio, com a perturbação dos meus próprios pensamentos, com o anseio e com a dor. Alimenta-me cada vez mais a própria fome, preenche-me cada vez mais a ausência e já não quero ter para onde ir.

Dos meus dias restou a vontade de romper as servidões, de viver aquilo que chamam de miséria pela simples certeza de que é o maior tesouro; é a verdadeira vida. Importa para mim desfrutar dos meus limites, dar importância ao que não pode comprar nada. Hoje eu sou vergonha, sou consciência gasta e maltrapilha. Sou o que chamam de fracasso e, ao ver todo o giro da ampulheta, de repente, já não me importo.

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