la vie en rose

Madrugada atípica a de hoje. Tão poucas iguais a essa foram as minhas, que me lembro bem de cada uma. Estou sentada na janela com as pernas penduradas. Vendo, aos poucos, o céu ir da escala de preto até o azul, e um tom amarelo surgir entre as nuvens. La vie en rose tocando no fone de ouvido. Uma caneca de chá nas mãos e a fumaça perfumada, que se esculpira à minha frente, se desfazendo em segundos. Observo, do meu quarto no segundo andar, o silêncio das casas em volta da minha. As luzes apagadas; o sono leve de quem vai acordar daqui a poucos minutos, e o sono pesado de quem não terá o que fazer antes das onze. As preocupações dos que dormiram para esquecer dos problemas que, ao amanhecer, voltarão a existir. O ronco pesado do corpo cansado e imóvel, que não parece estar habitado por uma mente que sequer cochila. A tranquilidade dos que dormiram felizes e agradecidos. Pessoas acordadas em frente à tv. Alguns pela rua trabalhando sem ser notados. E eu aqui, acordada, imaginando cada um daquela cidade, como espectadora das possibilidades da existência.

É como ter o céu em meio ao caos. A sensação reconfortante de levantar da cama de manhãzinha sentindo-se segura, arrastar o cobertor pela sala da casa e deitar no sofá para assistir desenhos dançados ao som de Beethoven. Como comer biscoitos vendo Madeline, repetindo todas as palavras em francês pronunciadas, reparando cada rima da narração. Sorrindo sem motivo além do sentir de algo inexplicavelmente sublime. É tal como a guerra, não nos campos de batalha, mas nas casas isoladas com a vitrola ligada, na corrida de crianças despreocupadas por entre as plantações, nos sorrisos das famílias no porão ao reviver memórias. Assemelha-se a filmes restaurados vistos numa tarde chuvosa, comendo bolo de fubá recém-saído do forno. Algumas noites como essa me fizeram tão plena que eu desejei companhia para dividir o que transbordava em mim.

Estar incompleta transvestia-se da necessidade de ficar completamente só. Costumava ser quando havia tanto barulho que eu não conseguia arrumar meus pensamentos gavetas, e precisava refletir sobre coisas que eu não podia explicar, como o porquê de estar viva. Nada de bonito parecia existir ou ser real. Mas quando me encontro numa madrugada como essa, vestindo uma camisa larga, agora já ouvindo The Drums no escuro; de repente, estou apenas feliz. São momentos que a gente deseja explicar, mas não consegue, são pequenos silêncios que valem a vida toda. Neles é que eu quero companhia. Companhia que os anos me fazem acreditar que nunca virá.

Miserável é a condição de quem imagina a vida para viver, de quem já tomou para si histórias excelsas que não passaram da memória de ocasiões nunca vividas de fato. O fardo de produzir lembranças irreais e esquecer-se de pisar na realidade. Fardo que se torna vício e, no fim, o próprio abismo. Não sei se o que há mim é verdadeiro ou se vivo uma farsa. Se tranquei meus sentimentos verdadeiros onde não pudesse recuperá-los e furtei outros, melhores de serem sentidos, para afagar a minha mediocridade. A vontade de amar me levou ao exagero, ao erro de ser uma esponja num copo de sofrimentos alheios dissolvidos. Já não posso diferenciar, por meio da razão, o que é realmente meu do que assimilei por vontade de sentir qualquer coisa que me fizesse mais sólida.

Assim estou. Diante das minhas fantasias, esperando apenas ser surpreendida por algo que seja melhor do que elas pelo simples fato de existir. A companhia verdadeira de sentimentos ofegantes, de uma dúvida trêmula. Da sensação de estar perdendo o juízo, da saudade e do olhar sincero. A companhia de um sentimento que, finalmente, não me faça considerar a hipótese de que ele não seja real.

* obras de Raymond Peynet.

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a solitude dos acompanhados

O afastar que não inibe a possibilidade de companhia.

“A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. ” [Arthur Schopenhauer]

Todos nós já ouvimos ou perguntamos a nós mesmos se não queremos ter filhos e se não temos medo de ficar sozinhos durante a velhice. O conceito de que a constituição familiar é parte de um processo de satisfação pessoal e não de projeção de indivíduos com livre escolha, é cada vez mais presente e imputa frustrações e expectativas sobre as pessoas. Pais tornam-se proprietários comportamentais de seus filhos através do domínio de ações e vontades; a responsabilidade educacional se perde em meio à ‘brincadeira de casinha’. Entretanto, outra concepção humana presente nas entrelinhas de perguntas como essa, é a do medo de estar sozinho, que nem sempre possui causas consistentes e é aquilo que funciona como engrenagem para a vida. O receio implícito à palavra solidão é causado pelo sentimento de que ela é a própria dor do rompimento de interações, quando esse é apenas um processo inato da estruturação social. Solidão não é sinônimo de carência, já que pode acontecer na presença de pessoas, e é necessária para a compreensão de si mesmo e percepção do mundo.

“Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas. Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia.” [Friedrich Nietzsche]

“… homens privados de solidão, de uma solidão que lhes seja própria, são, enfim, ridiculamente superficiais, sobretudo por sua tendência fundamental de ver nas formas da antiguidade a causa de toda miséria humana. Sua aspiração é a felicidade do rebanho, as verdes pastagens, a segurança e o bem-estar.” [Friedrich Nietzsche]

A possibilidade de perder o toque e a permanência de alguém é perturbadora e impulsiona o temor da solidão. Entretanto, essas são emergências da carne, não de espírito; afinal, nenhuma delas caracteriza a companhia de fato. É possível estar presente e não fazer companhia, tal como fazer companhia estando ausente. O amor e todos os sentimentos capazes de preencher o vazio são plenos apenas se puderem ser sentidos diante da ausência. Quando pessoas estão ao nosso redor mas suas mentes se afastam de nós, fazer com que voltem é uma tarefa que só elas podem desejar, no entanto, quando estão longe, trazê-las para perto, em pensamento, pode ser feito por nós. Solidão não é apenas isolamento, é o estado de reprodução consciente do que é verdadeiro.

“Escolhei a boa solidão, a solidão livre, a que vos permite seguir sendo bons em qualquer sentido.” [Friedrich Nietzsche]

O pensamento crítico e o desenvolvimento da personalidade dependem da solidão. É ela que propicia o silêncio que esclarece. A urgência do sentir muitas vezes camufla a urgência do pensar, sendo que esse não pode ser ensinado. A nulidade proporciona a fuga dos louvores cretinos e dos elogios descriteriosos, além da compreensão das críticas tanto internas quanto externas. Portanto, a boa solidão deve ser aquela que não ultrapassa os limites da fundamental convivência humana, afinal, compreender a si mesmo é proveitoso quando exercido em comunidade, assim como a valorização da vida em comunidade torna-se ampla ao ser entendido o papel da solidão.

Segundo Paul Valéry, há momentos em que a solitude e o silêncio se tornam meios de liberdade. Porém, a maioria das pessoas, segundo Sigmund Freud, não quer realmente a liberdade porque ela envolve a responsabilidade que a maioria das pessoas teme. É mais fácil para nós atribuir aos outros a capacidade de nos ferir e de conduzir a nossa existência, por esse motivo o que ecoa quando estamos sozinhos parece tão incômodo. Estar em estado de análise pessoal não é o mesmo que construir muralhas internas que impedem a propagação de sentimentos.

“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.” [Fernando Pessoa]

*pinturas de Edward Hopper.