eu comigo.

Vivo aflita sempre a procurar por uma explicação, um motivo de ser, um alívio íntimo. Dos meus dias só resta a contagem de cada um, os quais acompanhei minuciosamente à medida que avançavam os ponteiros. Nunca tive autoestima admirável, nem sequer a ambição de tê-la. Julgam-me a consciência e a decência que entendo ter construído. Não aceitam que me reconheça menor do que acham que eu deveria me reconhecer. Desejo ser pequena para poder me acompridar e ter um lugar para pertencer  .

Não sou hábil para as convenções, tampouco me esforço para ser similar ao meio em que estou. Só me orgulho de não ser medíocre e pobre de alma. Meus dias de dor me fizeram cada dia mais questionadora do que me vitima. À medida que tentaram me prender, me tornei mais livre, ainda que pensasse estar cada vez mais só e perto da loucura. Hoje sei que cada passo espremido contra o chão e cada gota de sangue doada, são partes do que me fizeram o maior orgulho de mim mesma.

*Pinturas de Carl Vilhelm Holsoe.
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sablier

“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução… é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada… o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões.” (Antonio Candido durante a inauguração de uma biblioteca do MST, no interior de São Paulo)

minhas ambições eram agora diminutos e exíguos anseios.

Já não sei o que é ser realizada. Desde pequena fui levada a acreditar que poderiam se orgulhar de mim por tudo o que eu imaginava que construiria. A cena era sempre a mesma: os estudos sempre indo bem, uma carreira brilhante pela frente, bastante dinheiro no banco, uma casa grande e confortável. Pensava eu em fazer grandes descobertas, achava ter a solução para todos os problemas. Encontrava-me, então, na condição de salvadora dos meus próprios dias e dos dias de parte da humanidade. Mas que grande ilusão era aquela. Era um querer tão vazio de sentido que eu o perdi.

Com o passar do tempo aquilo que era o meu tudo tornou-se nada. Inverteram-se todas as prioridades e o que eu acreditava ser sinal de sucesso tornou-se a maior demonstração do mais fatal fracasso. Descobri que uma das minhas maiores virtudes seria a melancolia, e nenhuma das minhas suposições para o amadurecer eram substanciais o suficiente para a minha fome. Hoje eu já não quero o ser ou o descrever, contento-me apenas com o vácuo e com o silêncio, com a perturbação dos meus próprios pensamentos, com o anseio e com a dor. Alimenta-me cada vez mais a própria fome, preenche-me cada vez mais a ausência e já não quero ter para onde ir.

Dos meus dias restou a vontade de romper as servidões, de viver aquilo que chamam de miséria pela simples certeza de que é o maior tesouro; é a verdadeira vida. Importa para mim desfrutar dos meus limites, dar importância ao que não pode comprar nada. Hoje eu sou vergonha, sou consciência gasta e maltrapilha. Sou o que chamam de fracasso e, ao ver todo o giro da ampulheta, de repente, já não me importo.

do ser

Vida é aquilo que existe dada a pré-consciência de finitude. Sem tomar conhecimento da morte, a existência seria algo imaterial e sem formato, inominável e de dimensões inatingíveis. A consciência de finitude traz à vida a responsabilidade de nos conduzir à felicidade – que se faz promessa de dar sentido ao nosso período limitado no mundo. Também foi a vida que produziu o próprio caos do qual o conceito mais disseminado de felicidade foge. Não vivemos para ser felizes, aparentemente – pelo que é sugerido a nós – precisamos ser felizes para estarmos vivendo. Lidamos com consequências dos erros e acertos cometidos. As atitudes ruins não servem apenas para produzir o caos ou o arrependimento que esclarece, embora possam se reparar as consequências e aprender com eles. Os erros geram, como uma pedra jogada num lago, ondas que só avançam e não voltam, por mais que aparentemente eles não produzam males irreparáveis, mudam o curso de tudo.

Lembro-me de certa vez no metrô; um menino de pequena estatura e olhos com aparência de ressaca entrou e, encarando o chão, encostou-se em uma das portas frias. Eu segurava um pacote de biscoito que deveria ser o meu almoço daquele dia nublado e o menino passou a me encarar, desviando o olhar quando percebia que eu levantaria a cabeça, e esfregando as mãos desconcertado. Pedi que se aproximasse. Você quer? Ele apenas abaixou-se. Dei a ele o pacote todo e observei de longe a rapidez com que ele devorava cada uma das unidades, parecendo mal sentir o gosto de cada uma antes de engolir. Acho que ele não sabia quando comeria outra vez alguma coisa daquele tipo e o que seria depois da última mordida no último biscoito que segurasse; e esse pequeno fato talvez tenha intensificado o significado daquele momento. Não é surpresa que, na vida, cada pequeno detalhe que promova euforia seja comemorado quando se cogita a existência morte mais de perto.

Seguimos todos os dias com nossos afazeres dando-nos conta apenas da sobrevivência. Levantamos de manhã, escovamos os dentes, apressamos o passo, entramos debaixo do chuveiro, colocamos as roupas repetidas, passamos correndo em frente ao espelho, engolimos o café, avançamos para não perder o horário, cumprimentamos quem não queremos, olhamos sem enxergar, sentamos ao lado de histórias que nem consideramos conhecer, afastamos o toque, sentamos, lidamos com a papelada, vigiamos o relógio, tomamos a condução para casa, engolimos o jantar, deitamos, apagamos. É quando se aproximam de nós realidades trágicas, doenças agressivas ou a própria morte – se fazendo uma possibilidade – que percebemos a urgência da vida.

Tudo é uma questão de busca interminável. Quando alcançamos algo, ele pode facilmente perder o sentido porque a morte não ameaça mais a possibilidade de o conseguirmos. Você continua nutrindo seus hábitos a menos que alguma coisa o faça buscar outros que sejam novos. Você acostuma-se aos seus vícios de forma a não considerar quando não serão supridos. Bebes, necessariamente, todos os dias o whisky da sua marca favorita. A possibilidade de que ele acabe não é real e, por esse motivo, você não cogita outras bebidas. Se, de um dia para o outro, desaparecessem de todo o mundo, a adaptação deveria ser a única chance de manter-se. Diante da eternidade, a concepção de felicidade e aproveitamento da vida poderiam ser sem fundamento.

Há um relógio contando os passos curtos e acelerados do tempo. O ponteiro avança indicando a necessidade dos atos alegres. A satisfação pessoal é o melhor caminho para o que é efêmero. O relógio acelera ainda mais diante dos dias infelizes, que são tomados como dias vazios de significado, aqueles que foram perdidos e que soam como afronta à oportunidade de se estar vivo. ­Por mais que se ame viajar, há um momento em que voltar para casa, tirar a poeira dos móveis e desfazer as malas, se torna necessário. A tristeza é a casa para qual devemos voltar porque ela realmente nos entende e esclarece. Ainda que a sua natureza seja de alegria, você só pode descobrir isso diante da infelicidade. Assim se faz a tristeza fundamental a todos nós; a que nos mostra inúteis e evidencia o nosso verdadeiro valor.

“O apego ilimitado à vida, que se mostra aqui, não pode porvir do conhecimento e da reflexão; bem ao contrário, à luz de um exame ponderado tal apego parece insensato, pois o valor objetivo da vida é bem incerto, e é pelo menos duvidoso se a ela, a vida, não seria preferível o não-ser, e mesmo se se consultasse a reflexão e a experiência, é o não-ser que deve prevalecer. Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça em movimento de recusa.” (Arthur Schopenhauer, em Da Morte, página 25)

*pinturas de Edvard Munch.