Ele

Existe gente verdadeiramente bonita, que dá gosto de ver; daquele tipo que desperta um afeto inesperado, um aconchego em forma de atenção. Existe gente que é nada, que nos atravessa e só deixa para trás uma sensação de brisa que refrigera. Tem gente que é tela e se permite desenhar. Também há gente que é muro, nos rodeia como fortaleza. Existe gente que corrompe o nosso olhar e o transforma em incômodo.

E, no meio de tanta gente, havia ele, que era tudo.

Nove de fevereiro. As ruas de minha casa estavam cobertas de papel colorido picado e do meu quarto eu ouvia o eco das bandas tocando no centro da cidade. Um milhão de sorrisos naquela noite de folia, imaginei. Talvez tanto quanto as frustrações, trancadas em armários como âncoras – que libertaram quem as quisesse esquecer, pelo menos por um dia, embriagando-se de tudo que prometesse o desaprender efêmero de qualquer tipo de sofrimento. Suspirei e entrei debaixo do chuveiro, deixando a pressão da água massagear a minha pele. Fiquei por muitos minutos ali, sentindo meu cabelo escorrer pelas costas. Estava anestesiada pela água quente quando saí dali. Ainda enrolada na toalha, sentei-me na cama e abri o pequeno pote de creme que ainda não abrira desde o natal. Espalhava-o na pele enquanto o meu corpo parecia desistir de permanecer acordado. Lembro-me apenas de despertar na rua vazia, às três horas da manhã. Minhas pernas, diferentemente de mim, conscientes do desejo de saírem do quarto, haviam me levado à calçada. Era tudo muito escuro a não ser por uma luz que vinha da janela do quinto apartamento do meu prédio. Esfreguei os olhos, ainda sem entender aquele episódio, e levantei-me para retornar ao quarto, ajeitando o nó da toalha. Voltei-me mais uma vez para o tal apartamento, antes de passar pelo portão do edifício, e percebi um homem de cabelos bem escuros e arrepiados que equilibrava uma garrafa entre os dedos enquanto olhava entediado para o chão.

Não direi como nos conhecemos. Parte disso é porque não sei como aconteceu; se já o conhecia antes mesmo de encontrá-lo ou se tivemos um momento certo para isso. Apenas sei que, desde aquele dia em que o vi pela primeira vez, desejei estar com ele. Encontrávamos-nos no Café da rua sete todas as manhãs, eu pedindo um expresso e algo para comer no caminho para o trabalho, e ele sempre bebendo cappuccino. Gostava de ouvi-lo sorrir através de palavras. Furtavam a minha atenção cada uma das formas de expressão dele e eu sentia vontade de descascá-lo para saber que gosto tinha. Queria vê-lo por dentro e tocar, sem luvas, o perigo que eu pensava ser interno a ele. Rabiscava-me a pele em palavras avulsas, onde ele desejasse no momento. A minha permissão para cada passo que ele desse em direção a mim era dita pelo olhar. Nunca quis dar forma, em palavras, para o que eu sentia. Temia que se aquilo saísse de dentro de mim poderia ser roubado por alguém, ou que se perdesse, carregado pelo vento. Nas manhãs seguintes, passei a vê-lo diante da minha janela, com o braço escorado na parede. Observava deitada e com os olhos entreabertos, as suas costas com ossos aparentes e de pele pálida. Conseguia enxergar todas as veias passando pelo corpo dele feito atalhos em um mapa, e as invejava. Éramos duas pessoas no meio do barulho perturbador de uma multidão – num corredor apertado, separadas. Eu numa extremidade e ele em outra, cada um encostado em uma parede fria para que elas não desabassem, tentando dizer todas as vontades sem pronunciar palavra alguma. Ansiava que ele fosse meu e sabia que escolheria eternizar todos aqueles dias que passamos juntos. Mas éramos distantes, tínhamos algo demais para ser possível.

Por muitas vezes, eu o vi triste. Ele era essencialmente triste, faminto. Por mais que se alimentasse dos meus sentidos, nada bastava. Nas madrugadas, eu encarava o teto do quarto e esticava o braço percebendo a ausência dele. Era capaz de ouvir sua perturbação interna na sala, e um choro inquieto. Sabia que aquela era a necessidade mais emergencial dele. Eu já não perambulava inconsciente, acordando nas calçadas. Aquelas manhãs passaram a ser feitas para que, depois da ressaca, eu o beijasse por segundos milenares. Acho que o amava. Ele parecia pressentir que nos odiaríamos e não conseguir fugir disso. Eu, que o apreciava como se fosse um sentimento meu, sabia que era impossível para nós dois a interrupção de laços. Sabia que nenhum de nós poderia conduzi-la, já que agora éramos parte de um mesmo problema. Ficar juntos faria com que morrêssemos aos poucos, um devorando o outro. Aparentava ser esse o nosso maior castigo; chamaria de uma coceira constante que viajava pelo corpo fugindo das unhas que a pudessem conter e que, quando finalmente sossegava, permitia que a arranhássemos tão forte, dilacerando toda a pele, e o prazer era inominável, seguido de dor.

kl

*pintura de Gustav Klimt.


Brenda Candeia.

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